Crime sem Castigo - Woody Allen no ringue contra Dostoiévski | Fantástica Cultural

Crime sem Castigo - Woody Allen no ringue contra Dostoiévski
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Crime sem Castigo - Woody Allen no ringue contra Dostoiévski

Paulo Nunes ⋅ 31 agosto 2021
O homem que disse "prefiro ter sorte a ser bom" entendeu o significado da vida.

Com esta frase um tanto pretensiosa, carregada de certo cinismo, Woody Allen inicia uma de suas melhores produções para o cinema: Match Point (ou Ponto Final, no título brasileiro), de 2006: O homem que disse "prefiro ter sorte a ser bom" entendeu o significado da vida. Que pancada filosófica!

O argumento principal de Woody Allen é de que a vida de uma pessoa pode ser (e provavelmente sempre será) determinada pelo acaso. Na abertura do filme, há uma partida de tênis: a bola, em dado momento, bate contra a quina da rede central e é ricocheteada para cima, bem no centro da quadra; ela pode cair para um lado ou para o outro da rede, definindo aleatoriamente quem ganharia o ponto final e, portanto, a partida. É uma metáfora escancarada: o destino é como um jogo. Há sempre uma dose de sorte em cada lance, e a jogada final (chamada de match point no tênis) é a que decide o vencedor.

Parte intelectual, parte pretencioso, nosso caro Woody Allen decide dialogar com outros autores que abordaram temas semelhantes, em especial Fiódor Dostoiévski, em Crime e Castigo. Em certo momento do filme, vemos o protagonista lendo este exato livro. Outra obra literária célebre cujo enredo assemelha-se a Match Point é O Vermelho e o Negro, de Stendhal. Scarlett Johansson e Woody Allen Mas ainda que a temática destes dois romances se cruze com o enredo do filme, a conclusão de Match Point é inteiramente oposta à dos clássicos (isto é, trata-se de uma atualização filosófica oferecida por Allen, de acordo com sua visão bem pessimista do mundo).

Com o desenvolvimento da história, Chris Wilton, o protagonista, decide [SPOILERS] assassinar a própria amante, a belíssima Nola (Scarlett Johansson), a fim de resguardar seu casamento. Depois de cometer o ato, ele passa a ser atormentado pelo remorso. Em um de seus sonhos, pondera:

Seria bem apropriado se eu fosse preso e punido. Pelo menos seria um pequeno sinal de justiça. Uma pequena medida de esperança da possibilidade de sentido.

Se lhe adviesse algum castigo pelo seu crime, talvez se pudesse crer que o destino providencia a justiça para os seres humanos. Que existe, afinal, alguma razão transcendental para se fazer o bem, e evitar o mal. Mas Woody Allen, ao que tudo indica, não acredita que exista tal ordem universal.

Chris é um professor de tênis sem muitos recursos financeiros. Para ele, os irmãos aristocratas Chloe e Tom Hewett apresentam-se como uma oportunidade de ascensão social; e ele aproveita-a bem, seduzindo e se casando com Chloe. No entanto, é pela ex-noiva de Tom, a atriz Nola, que ele se apaixona, e os dois mantém um caso. O perigo de que esse relacionamento fosse descoberto, aliado à incapacidade de Chris de controlar seus desejos por Nola, leva a história ao limite: a única saída para Chris é matar sua amante, garantindo assim uma vida tranquila e abastada ao lado de Chloe.

Tanto Chris quanto a amante Nola são de origem humilde e, uma vez sendo apresentados à família Hewett, encontram uma possibilidade de ascensão social. No entanto, cada um deles lida de forma diferente com a oportunidade, de acordo com sua filosofia de vida.

Enquanto Chris tenta adaptar-se à família, esmerando-se para agradá-la (enviando-lhe flores, por exemplo) e para impressioná-la (pondo-se a falar de Dostoiévski com o Sr. Hewett, a fim de indicar sua cultura e sofisticação), Nola segue o caminho inverso: ela se mostra autêntica, fiel aos seus antigos anseios (não aristocráticos) — e, por esta razão, é rejeitada pelos aristocratas. A cena em que os dois (Chris e Nola) se encontram na rua ilustra bem a diferença: Nola dirige-se a uma seleção de emprego para atrizes, seguindo seu antigo objetivo, ao passo que Chris procura por um suéter igual ao de Tom, interessado em parecer-se com os Hewett e agradá-los.

A dedicação de Chris como tenista "foi um meio de sair da mediocridade", segundo o próprio personagem; mas não o único. Uma das principais razões de seu sucesso é a dissimulação — este que é, aliás, um dos temas paralelos do filme. Ele está profundamente vinculado ao primeiro — a sorte —, visto que, numa visão de mundo em que não há justiça providencial, inexiste a necessidade de julgamentos morais. Sua dissimulação é, na verdade, uma simulação permanente: a adoção de estereótipos apropriados a seus interesses.

E não se trata unicamente de um recurso que lhe garante o sucesso; é, na verdade, uma característica adaptativa de seu caráter.

Esse outro tema, o da ascensão social, foi abordado de forma muito parecido em O Vermelho e o Negro, cujo protagonista, Julian Sorel, vive uma trajetória semelhante à de Chris em vários aspectos. Quando esconde suas verdadeiras características e ideias sobre a vida, a fim de adaptar-se ao meio social como um camaleão; quando embarca calculadamente em profissões indesejadas, unicamente para entrar em contato com pessoas que podem lhe abrir portas; Edição em inglês de O Vermelho e o Negro, de Stendhal quando seduz mulheres artificialmente apenas para obter vantagens financeiras ou de status; enfim, quando emerge de uma origem pobre e alcança os salões da aristocracia, Chris Wilton e Julian Sorel parecem ter sido criados um à imagem do outro.

No contexto de O Vermelho e o Negro, o personagem Julian Sorel cultivava pensamentos considerados imorais para sua época, reavivando louvores a Napoleão, embora procurasse dissimular tais ideias perante a sociedade conservadora. De forma semelhante, o protagonista de Match Point mantém em segredo sua visão imoral de mundo que, num caso extremo, o leva a cometer dois assassinatos (não apenas o de Nola, que ele havia planejado, mas também o de uma testemunha inesperada, como ocorre em Crime e Castigo). Sua motivação, como a do protagonista de Crime e Castigo, era apenas "atingir um bem maior" — isto é, o seu próprio.

"Sou naturalmente competitivo", Chris admite.

E é nesse ponto final do filme — o assassinato — que o roteiro de Allen assemelha-se mais ao livro Crime e Castigo. Há muitas semelhanças, a começar pelo protagonista: Raskólnikov, embora muito pobre, Arte para uma edição antiga, em inglês, de Crime e Castigo de Dostoiévski é um professor de línguas, assim como Chris é professor de tênis, e ambos compartilham um angustiante desejo de se tornarem importantes.

Mas é quando Raskólnikov contempla a possibilidade de quebrar as regras morais, a fim de atingir um objetivo maior, que sua história aproxima-se mais da de Chris: o jovem professor de línguas, em Crime e Castigo, planeja e executa o assassinato de uma velha agiota, dada a conveniência das circunstâncias, com o intuito de roubar-lhe joias. Ao tentar fugir, no entanto, ele é pego em flagrante pela irmã da vítima e, para evitar testemunhas, executa-a também (com um machado, diga-se de passagem).

Chris Wilton havia lido Crime e Castigo: Raskólnikov, após o crime, passa a viver atormentado pela culpa, pelo remorso, e quando não mais consegue suportar os tormentos da consciência, decide confessar-se à polícia. Em Dostoiévski, os escrúpulos cristãos do personagem são mais fortes. O crime de Raskólnikov não compensa.

É exatamente nesse ponto-chave — a confissão — que o filme contrapõe-se ao livro. A despeito de seu sofrimento, de sua culpa e até de pesadelos, Chris mantém a farsa até o fim. Ao contrário de Raskólnikov, Chris vence a pressão moral e supera as limitações de sua consciência. Restaria à polícia descobrir ou não o autor dos assassinatos — mas, aqui, Woody Allen coloca a sorte ao lado de Chris, que é inteiramente absolvido. Sem escrúpulos e com sorte, o protagonista tem um final feliz, agora um aristocrata, ao lado da esposa Chloe.

Com essa pequena diferença, Woody Allen confere a esse filme grande originalidade (e um final desconcertante). É, além disso, uma produção-coringa em sua filmografia. Sem maniqueísmos implausíveis, e com seu insight sombrio sobre a natureza do sucesso entre os seres humanos, Allen conclui Match Point com um comentário de Tom, o genro, sobre o filho recém-nascido de Chris:

"Não me importo se ele não for o melhor. Espero que tenha sorte."


Escrito em colaboração com Leandro Machado.

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Paulo Nunes

Escritor, editor, historiador e pesquisador