O Castelo | Conto | Fantástica Cultural

O Castelo | Conto
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O Castelo | Conto

Paulo Nunes ⋅ 3 setembro 2021
Nem tudo é o que parece.

Estava tudo ali, diante dele. Contemplava, enfim, o que esperara sua vida inteira para conhecer. Desde que nascera, um oceano inteiro o separara daquele lugar — aquela que era a terra de sua família. Agora que a via, emocionado, divisava afinal o pequeno castelo secular em que seus antepassados haviam vivido. Suas janelas, suas torres, seus terraços — tudo aquilo, como lhe dizia a carta que tinha nas mãos, havia se tornava propriedade sua. Era tudo muito belo, e ele não podia evitar de comover-se; seu coração doía.

Alegrou-se ao estudar os detalhes. O castelo não era exatamente uma fortaleza, apesar dos imponentes torreões que guarneciam as extremidades. Reparou, por exemplo, que as janelas eram amplas e em grande número, inclusive no térreo — o que não convinha a uma fortificação. Observou, com interesse, o gramado de um verde intenso que se estendia ao redor da construção, entremeado por sebes e jardins. Não sabia nada sobre flores, mas pôde reconhecer, nos canteiros, as magnólias, cujo perfume sempre apreciara. Eram elas, e as rosas, que agora defendiam o castelo.

Apaixonara-se desde pronto pelo patamar do segundo nível, que encimava o portal de entrada. O local parecia ideal para trabalhar e, estando ali com papel e caneta, nada mais lhe faltaria. Não era nenhum jovem, e o que mais queria era tranquilidade. Naquele recanto, ao terraço, encontraria a serenidade de que precisava. Havia ali vários bancos, junto a um jardim suspenso, e por detrás de uma porta em arco, um salão amplo e charmoso. Poderia passar o resto de seus dias naquele lugar; leria durante as manhãs, escreveria à tarde e, à noite, faria longos passeios.

Para além do castelo, via-se o pomar e, mais atrás, a floresta. Aquelas terras, ele sabia, também eram suas. Mesmo de longe, julgava distinguir o gênero das árvores — faias, pensava ele, muito velhas e retorcidas; e altivos carvalhos. A mata estendia-se por cima de uma colina e, no horizonte, montanhas com toucas de neve tocavam o céu. Por um instante, imaginou-se caminhando ao pé delas; mas era pouco provável que viesse a fazê-lo. Estavam muito distantes. Mais próximo e acessível encontrava-se o lago, logo às costas do castelo. Talvez, se arranjasse um barco, dentro em pouco aprendesse a pescar.

Aquilo tudo ele tinha nas mãos, literalmente. Em uma foto. Mantinha, sobre o colo, o envelope aberto e a carta recém-entregue, anunciando-lhe a herança. A ironia pareceu-lhe cruel. Àquelas alturas, já não sonhava escapar com vida da cama do hospital. Suas pernas há muito não se moviam. Doença terminal, haviam lhe dito. Ainda sentia o cheiro das magnólias ao ar morno da manhã, e o calor do sol aquecendo sua pele. Talvez, pensava, mudar-se para o castelo não seria tão difícil, se usasse da estratégia correta; talvez tudo o que precisasse era desconectar alguns apetrechos, inclinar-se para o lado, e adormecer.

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Paulo Nunes

Escritor, editor, historiador e pesquisador