Uma Flor Amarela - Julio Cortázar | Conto Completo | Fantástica Cultural

Uma Flor Amarela - Julio Cortázar | Conto Completo
C O N T O Literatura

Uma Flor Amarela - Julio Cortázar | Conto Completo

Autores Selecionados ⋅ 9 janeiro 2021
"Parece brincadeira, mas somos imortais. Todos imortais, meu velho. Veja só, até hoje ninguém tinha conseguido comprovar isso e afinal fui eu, num ônibus."

Uma Flor Amarela, de Julio Cortázar

uma flor amarela julio cortazar2 Figura do Slideshow #1 Parece brincadeira, mas somos imortais. Sei disso pela negativa, sei porque conheço o único mortal. Ele me contou sua história num bistrô da rue Cambronne, tão bêbado que não tinha o menor problema em dizer a verdade embora o dono e os velhos fregueses do balcão rissem até soltar vinho pelos olhos. Ele deve ter visto algum interesse pintado na minha cara, porque não desgrudou mais de mim e acabamos nos dando o luxo de uma mesa num canto onde se podia beber e conversar em paz. Contou que era aposentado da prefeitura e que sua mulher tinha ido morar com os pais por uma temporada, um jeito como outro qualquer de admitir que o deixara. Era um sujeito nada velho e nada ignorante, com um rosto ressecado e olhos tuberculosos. Realmente bebia para esquecer, coisa que proclamava a partir do quinto copo de vinho tinto. Não senti nele o cheiro que é uma assinatura de Paris mas que aparentemente só nós, estrangeiros, sentimos. E tinha unhas bem-cuidadas, e nada de caspa.

Contou que um dia tinha visto um menino de uns treze anos num ônibus da linha 95 e que, após olhá-lo por um tempo, descobriu que o menino se parecia muito com ele, ou pelo menos com a lembrança que tinha de si mesmo naquela idade. Pouco a pouco foi admitindo que se parecia demais, o rosto e as mãos, a mecha de cabelo caindo na testa, os olhos muito separados, e mais ainda na timidez, a forma como se refugiava numa revista em quadrinhos, o gesto de jogar o cabelo para trás, a irremediável falta de jeito nos movimentos. Era tão parecido com ele que quase teve vontade de rir, mas quando o menino desceu na rue de Rennes ele desceu também e deixou na mão um amigo que o esperava em Montparnasse. Arranjou um pretexto para falar com o menino, perguntou por uma rua e ouviu já sem surpresa uma voz que era a sua própria voz na infância. O menino ia para a tal rua, caminharam juntos timidamente por algumas quadras. A essa altura teve uma espécie de revelação. Nada estava explicado mas era uma coisa que podia prescindir de explicação, que se tornava imprecisa ou estúpida quando se pretendia — como agora — explicá-la.

uma flor amarela julio cortazar Figura do Slideshow #2 Resumindo, deu um jeito de conhecer a casa do menino e, com o prestígio de um passado de chefe de escoteiros, se encaminhou para aquela fortaleza das fortalezas, um lar francês. Encontrou uma miséria decorosa e uma mãe envelhecida, um tio aposentado, dois gatos. Depois não foi muito difícil conseguir que seu irmão lhe confiasse o filho, que estava com uns quatorze anos, e os dois meninos ficaram amigos. Começou a ir toda semana à casa de Luc; a mãe o recebia com café requentado, falavam da guerra, da ocupação, e também de Luc. O que tinha começado como uma revelação agora se organizava geometricamente, ia adquirindo o perfil demonstrativo que as pessoas gostam de chamar fatalidade. Era até possível formular a coisa em palavras de todos os dias: Luc era ele outra vez, não havia mortalidade, éramos todos imortais.

— Todos imortais, meu velho. Veja só, até hoje ninguém tinha conseguido comprovar isso e afinal fui eu, num ônibus 95. Um pequeno erro no mecanismo, uma dobra do tempo, um avatar simultâneo em vez de consecutivo. Luc teria que ter nascido depois da minha morte, e em vez disso... Sem contar a fabulosa coincidência de encontrá-lo no ônibus. Acho que já disse, foi uma espécie de certeza total, sem palavras. Era aquilo e se acabou. Mas depois começaram as dúvidas, porque nesses casos ou você se trata de um imbecil ou toma um tranquilizante. E com as dúvidas, matando-as uma por uma, as demonstrações de que eu não estava enganado, de que não havia motivo para duvidar. O que vou dizer agora é o que esses imbecis acham mais engraçado, quando às vezes me ocorre contar a eles. Não apenas Luc era eu outra vez, mas ia ser como eu, como este pobre infeliz que está aqui falando. Era só vê-lo brincar, vê-lo cair sempre de mau jeito, torcendo um pé ou deslocando uma clavícula, os sentimentos à flor da pele, um rubor que lhe subia pelo rosto quando lhe perguntavam alguma coisa. A mãe era o contrário, mas como elas gostam de falar, como contam qualquer coisa mesmo que o menino esteja ali morrendo de vergonha, as intimidades mais incríveis, as histórias do primeiro dente, os desenhos dos oito anos, as doenças... A boa senhora não desconfiava de nada, é claro, e o tio jogava xadrez comigo, eu era como da família, cheguei a emprestar dinheiro para eles até o final de um mês. Não foi nada difícil conhecer o passado de Luc, bastava intercalar umas perguntas entre os assuntos que interessavam aos velhos: o reumatismo do tio, as maldades da porteira, a política. Assim fui conhecendo a infância de Luc entre xeques ao rei e reflexões sobre o preço da carne, e assim a demonstração foi se realizando, infalível. Mas preste atenção, enquanto pedimos outra dose: Luc era eu, o que eu tinha sido quando menino, mas não o imagine como um decalque. Era antes uma figura análoga, entende, porque aos sete anos eu desloquei um pulso e Luc a clavícula, e aos nove anos tivemos respectivamente sarampo e escarlatina, e a história também influía, meu velho, o meu sarampo durou quinze dias enquanto curaram Luc em quatro, são os progressos da medicina e essas coisas. Tudo era análogo, e por isso, para dar um exemplo, poderia muito bem acontecer que o padeiro da esquina fosse um avatar de Napoleão e ele não sabe disso porque a ordem não foi alterada, porque nunca vai se encontrar com a verdade num ônibus; mas se chegasse de algum modo a tomar conhecimento dessa verdade, poderia entender que repetiu e está repetindo Napoleão, que passar de lavador de pratos a dono de uma boa padaria em Montparnasse é o mesmo movimento que pular da Córsega ao trono da França, e que escavando devagar na história da sua vida encontraria os momentos que correspondem à campanha do Egito, ao consulado e a Austerlitz, e até saberia que dentro de alguns anos vai acontecer alguma coisa com a padaria e ele acabará numa Santa Helena que talvez seja um quartinho num sexto andar, mas também vencido, também rodeado pelas águas da solidão, também orgulhoso da sua padaria que foi como um voo de águia. Você entende, não é?

Eu entendia, mas opinei que na infância todos nós temos doenças típicas em determinadas épocas, e que quase todo mundo quebra alguma coisa jogando futebol.

— Eu sei, só falei das coincidências visíveis. Por exemplo, o fato de Luc se parecer comigo não tinha importância, se bem que teve para a revelação no ônibus. O importante mesmo eram sequências, e isto é difícil de explicar porque dizem respeito ao caráter, a lembranças imprecisas, a fábulas da infância. Nesse tempo, quer dizer, com a idade de Luc, eu passei um período difícil que começou com uma doença interminável, depois disso fui brincar com os amigos e quebrei um braço em plena convalescença, e assim que saí dessa me apaixonei pela irmã de um colega e sofri como a gente sofre quando é incapaz de olhar nos olhos de uma garota que está zombando da gente. Luc também adoeceu, ainda convalescente o levaram ao circo e quando foi descer a arquibancada escorregou e deslocou um tornozelo. Pouco depois sua mãe o surpreendeu certa tarde chorando ao lado da janela com um lencinho azul apertado na mão, um lenço que não era da casa.

Como nesta vida alguém sempre tem que fazer o papel do questionador, eu lhe disse que amores infantis são o complemento inevitável dos machucados e das pleurisias. Mas admiti que a história do avião já era outra coisa. Um avião com uma hélice a corda, que ele lhe deu de aniversário.

— Quando o entreguei me lembrei mais uma vez do Meccano que minha mãe me deu aos catorze anos, e do que aconteceu. O que aconteceu foi que eu estava no jardim, apesar do temporal de verão que se anunciava e dos trovões que já se ouviam, e tinha começado a montar um guindaste na mesa do larguinho, perto da porta da rua. Alguém em casa me chamou e tive que entrar um minuto. Quando voltei, a caixa do Meccano tinha desaparecido e a porta estava aberta. Gritando desesperado corri para a rua onde já não se via ninguém, e nesse mesmo instante caiu um raio na casa em frente. Tudo isso ocorreu num só ato, e eu me lembrei desse momento enquanto dava o avião a Luc e ele o olhava com a mesma felicidade com que eu tinha olhado o meu Meccano. A mãe veio me trazer um café, e estávamos trocando as frases de sempre quando ouvimos um grito. Luc tinha corrido até a janela como se quisesse se jogar no vazio. Estava com o rosto pálido e os olhos cheios de lágrimas, chegou a balbuciar que o avião tinha se desviado no voo, passando exatamente pelo vão da janela entreaberta. "Não dá para ver mais, não dá para ver mais", repetia chorando. Ouvimos gritos lá embaixo, o tio entrou correndo para avisar que havia um incêndio na casa da frente. Entende agora? Sim, é melhor tomarmos outra dose.

Depois, como eu continuava calado, o homem disse que havia começado a pensar exclusivamente em Luc, na sorte de Luc. Sua mãe pretendia mandá-lo a uma escola de artes e ofícios, para que modestamente abrisse o que ela chamava de um caminho na vida, mas esse caminho já estava aberto e só ele, que não podia falar sem que o tomassem por louco e o separassem de Luc para sempre, podia dizer à mãe e ao tio que era tudo inútil, que fizessem o que fizessem o resultado seria o mesmo, a humilhação, a rotina lamentável, os anos monótonos, os fracassos que vão roendo a roupa e a alma, o refúgio numa solidão ressentida, num bistrô de bairro. Mas o pior de tudo não era o destino de Luc; o pior era que Luc morreria por sua vez e outro homem repetiria o movimento de Luc e o seu próprio movimento, até morrer também para que outro homem também entrasse na roda. Luc quase não lhe importava mais; de noite, sua insônia se projetava mais à frente, até outro Luc, até outros que se chamariam Robert ou Claude ou Michel, uma teoria ao infinito de pobres-diabos repetindo o movimento sem saber, convictos da sua liberdade e do seu arbítrio. O homem era desses que o vinho entristece, não havia nada a fazer.

— Agora eles riem de mim quando eu digo que Luc morreu poucos meses depois, são idiotas demais para entender que... Sim, não fique também me olhando com esses olhos. Morreu poucos meses depois, a coisa começou com uma espécie de bronquite, assim como eu tive uma infecção hepática na mesma idade. Fui internado no hospital, mas a mãe de Luc teimou em tratá-lo em casa, e eu ia lá quase todos os dias, às vezes levava o meu sobrinho para brincar com Luc. Era tanta a miséria naquela casa que minhas visitas acabavam sendo um consolo em todos os sentidos, a companhia para Luc, o pacote de arenque ou o bolo de damasco. Eles se acostumaram a me deixar comprar os remédios, depois que mencionei uma farmácia onde me faziam um desconto especial. Terminaram me aceitando como enfermeiro de Luc, e dá para imaginar que numa casa como aquela, onde o médico entra e sai sem grande interesse, ninguém repara se os sintomas finais coincidem exatamente com o primeiro diagnóstico... Por que está me olhando assim? Eu disse alguma coisa de errado?

Não, ele não tinha dito nada de errado, principalmente àquela altura do vinho. Muito pelo contrário, a menos que se imaginasse algo horrível, a morte do pobre Luc vinha demonstrar que qualquer pessoa dada à imaginação pode iniciar uma fantasia num ônibus 95 e terminá-la ao lado da cama onde um menino está morrendo silenciosamente. Para tranquilizá-lo, eu lhe disse isto. Ele ficou olhando o vazio por um instante antes de voltar a falar.

— Bem, tanto faz. A verdade é que nas semanas depois do enterro senti pela primeira vez algo que podia se assemelhar à felicidade. Ainda ia visitar vez por outra a mãe de Luc, levava um pacote de biscoitos, mas não me importava mais com ela nem com a casa, estava como que inundado pela certeza maravilhosa de ser o primeiro mortal, de sentir que minha vida continuava se gastando dia após dia, vinho após vinho, e que no final acabaria, em qualquer lugar e a qualquer hora, repetindo até o último momento o destino de algum desconhecido morto sabe-se lá onde e quando, mas só que eu estaria morto de verdade, sem um Luc que entrasse na roda para repetir estupidamente uma vida estúpida. Entenda essa plenitude, meu velho, inveje toda essa felicidade que eu tive enquanto durou.

Porque, aparentemente, não tinha durado. O bistrô e o vinho barato eram prova disso, assim como aqueles olhos onde brilhava uma febre que não era do corpo. E no entanto ele vivera alguns meses saboreando cada momento da sua mediocridade cotidiana, do seu fracasso conjugal, da sua ruína aos cinquenta anos, seguro de uma mortalidade inalienável. Certa tarde, atravessando o Luxemburgo, viu uma flor.

— Estava na beirada de um canteiro, uma flor amarela qualquer. Eu tinha parado para acender um cigarro e me distraí olhando-a. Foi um pouco como se a flor também me olhasse, esses contatos, às vezes... Você sabe, todo mundo sente isso, o que chamam de beleza. Justamente, a flor era bonita, era uma lindíssima flor. E eu estava condenado, algum dia iria morrer para sempre. A flor era bonita, sempre haveria flores para os homens futuros. De repente entendi o nada, aquilo que tinha pensado ser a paz, o fim da linha. Eu ia morrer e Luc já estava morto, nunca mais haveria uma flor para alguém como nós, não haveria nada, não haveria absolutamente nada, e o nada era aquilo, que nunca mais houvesse uma flor. O fósforo aceso me queimou os dedos. Na praça pulei num ônibus qualquer e absurdamente fiquei olhando, olhando tudo o que se via na rua e tudo o que havia no ônibus. Quando chegamos ao ponto final, desci e subi em outro ônibus que ia para os subúrbios. Subi e desci de ônibus a tarde inteira, até a noite chegar, pensando na flor e em Luc, procurando entre os passageiros alguém que se parecesse com Luc, alguém que se parecesse comigo ou com Luc, alguém que pudesse ser eu outra vez, alguém a quem olhar sabendo que era eu e depois deixá-lo partir sem lhe dizer nada, quase protegendo-o para que continuasse sua pobre vida estúpida, sua imbecil vida fracassada rumo a outra imbecil vida fracassada rumo a outra imbecil vida fracassada rumo a outra...

Paguei.

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