Objetificação do Corpo e Liberação Sexual: os dois lados da cultura sexual contemporânea | Fantástica Cultural

Objetificação do Corpo e Liberação Sexual: os dois lados da cultura sexual contemporânea

Objetificação do Corpo e Liberação Sexual: os dois lados da cultura sexual contemporânea

Rafael Lisboa ⋅ 24 janeiro 2021
Quanto mais cresce a liberdade sexual entre os membros de uma sociedade, mais prevalente se torna a objetificação dos corpos. Será uma coincidência?

Eis um paradoxo. Sabemos que a liberdade sexual é um dos aspectos sociais mais celebrados pelo feminismo. Ao mesmo tempo, sabemos que a objetificação do corpo feminino é um dos aspectos mais condenados pelas feministas. Como pode ter passado despercebido que esses dois fenômenos estão diretamente interligados?

Imagino que você já esteja um tanto nervoso, imaginando se direi algo revoltante nas próximas linhas. Naturalmente, esses são tópicos altamente polêmicos. Aqui, porém, não tenho qualquer interesse em criticar nem a liberação sexual, nem seu oposto (a castidade voluntária), sendo essas condutas uma escolha pessoal de cada um. Quando falamos nesses assuntos, há sempre moralistas dos dois lados: os mais conservadores, que enxergam tabus em situações naturais e corriqueiras, e os mais progressistas, que também enxergam tabus em situações naturais e corriqueiras. Ignoremos o moralismo, portanto, e vejamos os fatos.

Até poucas décadas atrás, como somos lembrados periodicamente, a sexualidade individual era bastante reprimida pela sociedade. Mas não escutamos a história toda. Publicamente, estabelecia-se que o sexo deveria ser reservado para depois do casamento, mas na prática, o tabu focava-se na promiscuidade. Muitas vezes, os pais aceitavam que uma filha fosse sexualmente ativa com um namorado "que a respeitasse" e que talvez viesse a casar com ela. O que era inaceitável era o sexo casual - isto é, o sexo sem conexão afetiva duradoura. E esse critério ainda perdura em muitas famílias.

Para muitas mulheres, esse tipo de pressão social é inaceitável. Em primeiro lugar, porque as críticas ao sexo casual são muito mais severas contra mulheres do que contra homens (críticas feitas principalmente por outras mulheres, diga-se de passagem). E em segundo lugar, porque elas rejeitam a ideia de que a opinião de outras pessoas deva limitar sua vida sexual.

Entra, então, a liberação sexual.

Agora, mulheres podem fazer sexo com quantos homens quiserem. Alguns encontros levam a relacionamentos-relâmpago, de algumas semanas ou meses. Outros duram apenas uma noite. É a hookup culture. E tudo isso é muito bacana e divertido. Mas como a grande maioria dessas relações é superficial, a conexão entre essas pessoas se dá em um nível de atração bastante primário, muitas vezes de forma hedonista e narcisista, e altamente focada na aparência, no formato do corpo e no valor de entretenimento imediato.

Não pretendo trazer Bauman para essa história, mas talvez você tenha lembrado de suas ideias sobre a sociedade de consumo. Assim como no livre mercado muitas empresas alimentam-se do hedonismo e do narcisismo das pessoas, vendendo-lhes todos os seus desejos e caprichos, no livre mercado de relacionamentos busca-se uma pessoa-produto. É claro, há um pouco de exagero nessa comparação, mas a tendência é clara: basta observar o comportamento das pessoas. Em uma relação dessa natureza, a pessoa é ao mesmo tempo parceiro e produto, ou parceiro e cliente. Nessa relação, homens e mulheres sofrem certo nível de objetificação.

E não se trata de apontar o que é melhor e o que é pior (pois há vantagens e desvantagens em cada caso), mas note que essa situação não existia no modelo tradicional. Tanto o homem quanto a mulher tendiam a considerar seu potencial parceiro em todos os seus atributos humanos, pois pensavam em casar e viver com aquela pessoa por décadas e décadas. Mesmo quem só pretendia namorar tinha em mente uma relação longa com um ser humano completo. A aparência não era um fator tão importante.

Assim, parece uma obviedade que quanto mais superficiais forem as relações sexuais em uma sociedade, maior será a objetificação dos indivíduos - isto é, a redução de ser valor ao caráter físico.

Não é à toa que, com o aumento vertiginoso da liberdade sexual no mundo, também não para de aumentar o número de mulheres postando fotos provocativas em troca de likes (auto-objetificação), de modelos de Instagram cuja autoestima é sustentada pela apreciação social de seus corpos, de empreendedoras do mundo pornográfico vendendo serviços customizados aos clientes (agora via Onlyfans) e de sugar babies montando-se como produtos para relacionamentos pagos. Tudo uma maravilha para quem curte, mas não venha reclamar de objetificação.

Em suma, se você chama excessiva atenção para sua aparência, você vai ser apreciado e julgado por sua aparência. Se é exatamente isso que você quer, então não há sentido em reclamar. E se não é o que você quer, por que diabos está se auto-objetificando?

E se você está curtindo a solteirice com sexo casual periódico, é claro que ninguém tem nada a ver com isso. Mas não se surpreenda se os homens procurem em você apenas uma pessoa para fazer sexo, porque é justamente o que você indica para eles que está procurando. Se um dia você diz "Eu sou empoderada, às vezes sexo é só sexo" e outro dia se pergunta "Por que aquele canalha escroto não me ligou no dia seguinte?", existe uma dissonância entre suas ações e suas expectativas.

No fim das contas, as pessoas estão sempre mais ou menos perdidas, sem saber bem o que fazer delas mesmas, especialmente quando o assunto é sexo e relacionamentos. E certamente isso não vai mudar tão cedo.

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Rafael Lisboa

Jornalista & designer