Perguntas Sinceras aos Religiosos #1 - Hierarquia Celeste, Perfeição, Livre-Arbítrio | Fantástica Cultural

Perguntas Sinceras aos Religiosos #1 - Hierarquia Celeste, Perfeição, Livre-Arbítrio
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Perguntas Sinceras aos Religiosos #1 - Hierarquia Celeste, Perfeição, Livre-Arbítrio

Paulo Nunes ⋅ 14 março 2021
Três questões para teístas e ateístas sobre o livre-arbítrio, o sofrimento humano, a perfeição do universo e a hierarquia das criaturas.

Queridos leitores, teístas ou ateístas: esta série, Perguntas Sinceras aos Religiosos, foi concebida para causar desconforto, mesmo. Não pelo prazer de desconcertar, mas pela importância de nos desacomodarmos um pouco e questionarmos nossas crenças, abrindo possibilidade de evolução intelectual. Tal exercício de autoquestionamento e de reflexão só é desnecessário para quem já sabe tudo o que há para se saber. Para os demais humanos, religiosos, agnósticos ou ateus, todo questionar-se é possibilidade para novas descobertas.

Assim, abra sua mente, e experimente investigar as seguintes ideias com sinceridade e curiosidade. E lembre-se: nenhuma ideia merece imunidade. As críticas aqui são feitas a ideias, e não a pessoas.

1. Se Deus existe, por que criou os seres humanos inferiores a ele, ao invés de criar entidades no mesmo nível que ele?

As pessoas nunca se perguntam sobre isso, não é?

Segundo a crença, antes da Criação Deus existia por si só, sem universo, sem companhia. Quando lhe deu na telha, resolveu criar o mundo e uma porção de outras entidades pensantes como ele. Mas note: todas inferiores a ele. Qual foi sua motivação?

Em nosso mundo, pais geram crianças com a intenção de que elas cresçam e se tornem tão ou mais capazes do que a geração anterior. Os bons mestres sempre se alegram quando seus alunos os ultrapassam em saber e competência. Talvez Deus, na concepção religiosa, seja tão maravilhoso que nada possa ultrapassá-lo... mas por que não criar entidades no mesmo nível que ele próprio, como companheiros, pares, amigos, como numa equipe de divindades? Se o religioso acha essa ideia aberrante, não será um sinal de auto-inferiorização? É como se muitos religiosos se julgassem abjetos perante a grandeza de Deus. Se for o caso, por que Deus teria criado seres tão inferiores, tornando-os conscientes dessa inferioridade para que eles ainda mais se perturbassem?

Ou será que os seres humanos possuem um complexo de inferioridade universal... Será que eles acreditam merecer terem sido criados infinitamente inferiores ao criador? Como podem merecer isso, se já foram criados nessas condições, imperfeitos? E essa propensão à servilidade é tão comum que, além de aceitarem essas condições como justas, muitos religiosos ainda agradecem pela oportunidade de sofrer no mundo, enquanto acreditam que Deus permanece existindo intocável. Não é impressionante?

É como se esse Deus tivesse desejado criar um exército de escravos subalternos às suas vontades e caprichos, todos mutilados do poder, da virtude e da sabedoria que ele poderia ter-lhes dado. Ao que parece, o Deus em que as pessoas creem criou seres inferiores para poder reinar sobre eles, testando seus destinos, lançando uns para o fogo do inferno, outros para a salvação eterna. Tudo isso desnecessário, se tivesse criado o universo de outra forma.

O que você pensaria de um pai que criasse seus filhos forçando-os a serem mais fracos, mais ignorantes e mais dependentes, talvez para melhor poder controlá-los, e depois ainda esperasse ser chamado de benevolente e ainda exigisse devoção?

2. Se Deus existe e é benevolente, por que não criou o mundo perfeito?

Muita gente responde a essa pergunta afirmando que "o mundo é perfeito". No entanto, perfeição é um ponto de vista. Já pensou nisso?

Por exemplo: um cego perfeito é aquele que não pode ver nada. Se ele fosse um cego que enxergasse um pouco, não seria um cego perfeito. Por isso, algo ser perfeito não é o mesmo que ser bom ou ruim. Na verdade, algo ser perfeito significa apenas que este algo cumpre 100% as expectativas de uma definição ou de alguém. Uma vida perfeita, por exemplo, depende das expectativas que as pessoas têm sobre a vida. Portanto, perfeição é apenas um julgamento subjetivo, de acordo com a opinião e as expectativas das pessoas.

Então, o universo é perfeito para quem? Para Deus? Porque para os seres humanos, o mundo não tem absolutamente nada de perfeito.

Se Deus, conforme se crê, era capaz de criar o universo da maneira como quisesse, já que é onipotente, por que criou uma realidade cheia de sofrimentos para pessoas e animais, onde criatura devora criatura, onde o inocente agoniza em dores indescritíveis, onde ocorre diariamente todo tipo de calamidade e tragédia?

Todo religioso tem uma explicação para isso, é claro. Mas minha pergunta é a seguinte: Sob qual justificativa ética este Deus absteve-se de criar um mundo melhor para suas criaturas, se era capaz de fazê-lo?

E ainda: Se você tivesse que eleger uma pessoa para reger o universo no lugar de Deus, e essa pessoa criasse uma realidade onde o sofrimento e a injustiça são onipresentes... e se você soubesse que essa pessoa poderia simplesmente apertar um botão mágico e tornar o universo perfeito para todas as suas criaturas... Se você soubesse que, por ser onipotente, essa pessoa poderia criar um mundo com livre-arbítrio e sem o mal (algo possível, pois Deus não é onipotente?)... O que você pensaria dessa pessoa? Cruel? Sadista? Um psicopata? A entidade mais cruel do universo?

Afinal, por que você perdoa a entidade que você acredita ter propositalmente dado origem a 100% do sofrimento e da injustiça do mundo, entidade onipotente que se recusa a combater o mal? Só porque essa entendida chama-se Deus?

3. Se Deus tem livre-arbítrio e não peca, por que o pecado no ser humano é explicado pelo livre-arbítrio? Se o ser humano peca porque é livre, mas imperfeito, a causa do pecado não seria a imperfeição colocada no homem pelo próprio Deus?

Um dos argumentos religiosos mais comuns para explicar o sofrimento humano é a existência do livre-arbítrio. Por alguma razão, poucos percebem que essa explicação não faz nenhum sentido.

Para que alguém peque, duas coisas são necessárias: o livre-arbítrio, e a falha de caráter. Acredita-se que Deus, por exemplo, tem livre-arbítrio. Mas também se acredita que Deus é incapaz de pecar, isto é, de fazer algo errado, algo mal. Por quê? Porque acredita-se que Deus seja perfeito. Portanto, o ser humano não peca apenas por ter livre-arbítrio; ele peca porque Deus o fez falho, intencionalmente.

Se um homem é egoísta e ganancioso, por exemplo, essas pulsões estão nele porque Deus as colocou nele. Se um homem estupra, seu desejo vil e incontrolável foi plantado em sua mente pela entidade que o criou (segundo a lógica religiosa). Se um homem mente, rouba, agride, tortura, assassina, todas essas pulsões foram cuidadosamente desenhadas na psique humana pelo próprio Deus (se você crê que Deus criou o homem).

Livre-arbítrio não explica o mal. Religiosamente falando, a pulsão maldosa colocada no ser humano por Deus é que explica o mal. Mas por que Deus seria tão cruel, impondo às suas criaturas uma falha que ele próprio não tem?

Um Deus benevolente teria criado criaturas livres e propensas ao bem. Mas se tomarmos as religiões como base, seremos levados a crer que Deus criou os seres humanos exatamente como um fabricante de carros que, de propósito, colocasse defeitos em seus veículos para testar quais iriam sofrer acidentes. Um sadismo sem sentido, é importante dizer, porque se Deus é onisciente, ele já saberia quais criaturas "dariam defeito" ou não.

Aqui, alguns religiosos podem tentar explicar a pulsão do mal colocando a culpa no Diabo. Mas essa transferência de responsabilidade não funciona: se Deus criou o Diabo propenso a se tornar mal, a lógica permanece: Deus criou um ser com defeito, propositalmente, sabendo que esse defeito levaria ao sofrimento de trilhões de criaturas inocentes (humanas e não humanas).

Então, resta a pergunta: Por que ele faria isso? No espiritismo, diz-se que as criaturas são sempre criadas no nível evolutivo mais inferior, para que, ao longo de incontáveis gerações, e através de imensurável sofrimento, atinjam a perfeição. Não seria próprio de uma alma servil e aduladora julgar essa lógica moralmente aceitável, sabendo que Deus já surgiu perfeito, sem passar pelo sofrimento, e que em sua onipotência poderia muito bem ter criado todos os seres já perfeitos como ele próprio, livres da dor?

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Paulo Nunes

Escritor, editor, historiador e pesquisador


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